segunda-feira, 11 de abril de 2011

Falência múltipla de nós mesmos.

No meio de uma dessas noites quaisquer num tédio absurdo eu resolvi mudar tudo de lugar no meu quarto.  Levando os livros de uma estante á outra me deparei com aquele livro dos recordes que nem lembrava que tinha e resolvi dar uma olhada, até por que eu tava cheio dessa arrumação sem nexo e mais ainda de uma alergia que tava tomando conta de mim, e honestamente, de doenças respiratórias, já bastava meus pacientes. Entre os recordes mais curiosos estavam o maior homem do mundo medindo 2 metros, 46 centímetros e 38 milímetros,  o cara bizarro que consegue arrastar 411,65 quilos com sua pálpebra... e ali depois da mulher estranha que tem 93% do corpo coberto de tatuagens, achei que nossas 87 mil idas e vindas, nossas 90 toneladas de indecisão e suas 1001 promessas se encaixariam e estampariam uma bela página daquele livrinho.
Pois é, sabe que nesses dias tenho lembrado de você? Eu era o estagiário banana e você a residente arrogante. No fundo eu sempre soube... Você era muito menos do que parecia ser. Aí um dia criei coragem e te ofereci meu café, você aceitou.  Daí eu ofereci minha mão, meu abraço, as palavras, e até mais café de novo. Então de repente surgiu alguém que eu não conhecia, mas que eu já esperava que existisse: A residente carente e menos arrogante.  Até então o dia em que eu chamo de maldito dia, é isso, bem maldito mesmo! Por que pessoas direitas como eu insistem em fazer amizade com Jhonny Walker? Te ofereci um drink. Uns aqui, dois ali e você era minha! Eu e meu jeito tosco: Cara, adoro trabalhar contigo... blá blá blá. Você prepotente: Cala a boca... E direta, me beijou.
A gente reclama das coisas que a gente recebe da vida mas a verdade é que no dia seguinte, naquele hospital caótico, depois de trocas de olhares discretas e um pouco arrependidas, ela só me disse:  Desculpa por ontem, aquilo não foi nada, melhor esquecer, bebi demais.  Sim, eu preferia que o velho Jhonny não tivesse saído do corpo dessa mulher tão cedo. Com os ouvidos bem abertos e a mente bem atenta eu permaneci do mesmo jeito, calado de raiva. E quem dera que esse tivesse sido o final de uma história boba de colegas de trabalho embriagados. O grande problema é que nas noites de plantão, ali numas salas escuras e vazias, você encarnava a carente de novo. E assim de novo e de novo, até eu me dar conta de que eu não passava de um calmante casual receitado para os seus dias de angústia, ainda arrisco dizer de carência. O pior não foi isso... O pior foi me dar conta de que você se tornou meu tarja preta!
E entre traumatismos cranianos, diabetes e hepatites, a coisa mais vulnerável ali dentro do P.S era meu coração... E o foda era que nem precisava de estetoscópio ou eletrocardiograma pra identificar essa minha tal falência cardíaca. Eu bebia café feito um condenado tentando não deixar meus olhos me condenarem da última noite mal dormida! Por que tem sido assim... tenho me perdido num misto de muita cafeína, dramim e você. A única diferença é que café tem logo ali na starbucks da esquina, o dramim tem nas prateleiras do depósito e você...  Você? Eu preferia dizer que aceitei viver sem te, que deixei de ser o garotinho bobo de sempre ou então que não sei do seu paradeiro, mas noite passada você estava ali no meu sofá bancando a doçura em pessoa, já hoje eu não tenho certeza de você. A única certeza que eu tenho é que eu preciso dobrar minhas doses de dramim e de amargura, e dessa vez eu não to falando do meu velho cafezinho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário