quinta-feira, 14 de abril de 2011

Te conforma, rapaz.

Era interessante o jeito em que as mãos dela de unhas vermelhas envolviam a pizza enquanto ouvia Radiohead e falava olhando pra te, em céus estrelados, que não conseguia viver sem você, ficar sem você seria algo estranhamente difícil. Aquelas pessoas cheias de esperança sussurraram pra mim que nem tudo que é difícil quer dizer impossível. Pra te também? Pois é. E olha ela agora se acabando numa dieta tediosa de grelhados, ouvindo musica escrota, mostrando os dentes num sorriso que diz pro mundo inteiro que viver só também pode ser viver bem. É rapaz, pode acreditar, ela ta bem sem te.
Não foi mentira, foi ilusão. E a partir de hoje, eu digo que essas palavras nem sempre andam de mãos dadas, nem sempre são a mesma coisa. Era mentira se ela realmente acreditasse que viver sem te seria fácil, mas dissesse pra te que não seria. Pois então,  foi pura ilusão. Foi um sonho em que alguém precisa de outro alguém e nessa solidão a gente fica cego. Não tava pré meditado, não era pra ser assim. Ela realmente achou que a vida não seria vida sem tua companhia pra fazer respirar, e te disse por que tava totalmente conformada com isso, com essa vidinha a dois. Mas que nada, besteira, foi coisa de momento. Você mesmo ajudou pra que ela pensasse assim.
Não é que ela não te ame mais. Ela ama sim e muito. Por isso viver sem te é melhor do que viver contigo sem te ter, assim, do jeito que ela quer. Daquele jeito que você sabe e por isso mesmo deu o fora pra não ter que arcar com as conseqüências de ser alguém extremamente amado, que recebe afeto de graça.  Todas aquelas palavras foram embora em um suspiro! E ela sabe: eu sei viver sem te. Não é viver, por que é difícil, irritantemente difícil. Ela apenas sobrevive, procurando jeitos e maneiras aleatórias de se conformar que sem todo esse teu peso, na cabeça, a vida fica mais leve. E fica mesmo.
Mas é que ás vezes fica leve demais. Ao ponto de ficar vazia. Sem cor, sem chão, sem nada e com cem musicas românticas pra botar na conta de quem não tem em quem pensar quando essas mesmas são ouvidas. Então ela disse que os neurônios se chocavam por que nessas noites confusas o sono vinha e ele voltava. Não voltava assim não! Ela não podia ter, mas não podia mesmo... Não era por falta de luta ou por não saber esperar. A guerra foi árdua e a sala de espera foi usada, bastante até. O problema é que simplesmente não era pra ser. Não tinha amor nas duas margens do rio e por isso o passeio do barco não vingou.
E foram dias e dias naufragando nesse mesmo abismo. Se distraindo de dia com os problemas do trabalho e lotando a cabeça á noite com bebidas entorpecentes pra não ter que deixar a vida te trazer de volta. São horas e horas rodando num mesmo circulo, sem parar, por que se parar, já viu, você volta no mesmo segundo, volta veloz, á tona. Então deixa ela. Deixa quieto. Qual é? Você bem que mereceu. Além de cigarro, tinha ela na mão. Mas os 40 reais que pagava pelo fumo não pagava por ela, então rapaz, fica quieto.
Vai te conformando de que a vida te deu uma flor e você não soube plantar o seu jardim. Aprende que ninguém vive parado pra sempre, ninguém espera nessa sala a vida inteira por que uma hora o estabelecimento fecha. E se quer atendimento 24 horas, procure por alguma dessas farmácias que tem xilocaína, mas lembra que é só anestesia temporária. Ela ta folheando livros que falam de felicidade enquanto você folheia teus dias atrás da mesma coisa. Porém, agora, não vai ser tão fácil assim. Pode fazer birra, sacanear, chorar, xingar, ela não te ouve mais! E te conforma que a culpa é toda tua. A única coisa que ainda vai ecoar ai é: Querido, se eu consigo, você consegue viver sozinho também. Te conforma, rapaz.

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